A sobrecarga de mulheres cuidadoras impacta economia e saúde pública, evidenciando a urgência de políticas estruturadas
O Brasil depende do trabalho invisível das cuidadoras informais, principalmente mulheres, que enfrentam sobrecarga física e emocional sem políticas públicas eficazes.
O papel central dos cuidadores informais no Brasil envelhecido
O envelhecimento populacional do Brasil tem levado a uma dependência crescente dos cuidadores informais, especialmente mulheres, que enfrentam desafios crescentes para garantir o bem-estar dos idosos. Dados recentes mostram que entre 2016 e 2019 o número de brasileiros nessa função subiu de 3,7 para 5,1 milhões. Mabel da Silva Cardoso Aroeira, que cuida da mãe e do marido com Alzheimer, exemplifica o peso dessa responsabilidade: “Se eu não estiver bem, quem cuida deles?”. Essa situação evidencia a fragilidade de um sistema que ainda carece de políticas públicas específicas de apoio e proteção para esses profissionais informais.
Impactos sociais e econômicos da sobrecarga das cuidadoras informais
O trabalho não remunerado das cuidadoras informais afeta profundamente a vida econômica do país. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que cerca de 7 milhões de mulheres em idade produtiva estão fora do mercado de trabalho devido às responsabilidades de cuidado familiar. Isso representa quase 10% da população feminina economicamente ativa, com consequências diretas na redução da produtividade e arrecadação tributária nacionais. Além disso, a sobrecarga física e emocional dessas mulheres compromete sua qualidade de vida e capacidade laboral, conforme pesquisas da Universidade de São Paulo e da Fundação Oswaldo Cruz.
Falta de políticas públicas estruturadas e seus efeitos na saúde dos cuidadores
A ausência de políticas públicas específicas para cuidadores informais agrava o sofrimento físico e mental dessas pessoas. Iniciativas pontuais como o projeto de extensão do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho oferecem algum suporte psicológico, mas a cobertura permanece insuficiente. A Organização Pan-Americana da Saúde alerta que o aumento da dependência dos idosos e a piora na saúde dos cuidadores podem pressionar ainda mais os sistemas de saúde brasileiros nas próximas décadas, caso não haja mudanças estruturais.
Desafios urbanos para o cuidado domiciliar nas grandes cidades brasileiras
Nas cidades, o cuidado domiciliar enfrenta obstáculos adicionais, como moradias pequenas e sem adaptações, transporte público precário e longas distâncias até unidades de saúde. Em áreas periféricas, onde o Estado é pouco presente, o cuidado torna-se um ato de resistência, frequentemente realizado em meio a outras responsabilidades e dificuldades econômicas. Programas de suporte a cuidadores informais são raros e experimentais, como os projetos de “bairros amigos do idoso” em Campinas e Curitiba, que ainda não alcançam escala significativa.
Perspectivas internacionais e a necessidade de regulamentação da profissão no Brasil
Países que envelheceram antes, como Japão e Alemanha, possuem sistemas públicos consolidados que subsidiam e capacitam cuidadores familiares. No Brasil, a profissão de cuidador ainda carece de regulamentação específica, sendo enquadrada muitas vezes como emprego doméstico comum. Embora programas governamentais como o Cuida Mais Brasil tenham sido lançados, sua implementação ainda é incipiente. Especialistas defendem um planejamento integrado que considere urbanismo, saúde pública e políticas sociais para transformar o cuidado em um pilar da infraestrutura social e assegurar dignidade para os idosos e seus cuidadores.
Fonte: veja.abril.com.br
Fonte: VEJA)














