Estudo da Universidade de Sydney indica falta de eficácia da cannabis medicinal para transtornos mentais comuns
Estudo da Universidade de Sydney conclui que cannabis medicinal não tem eficácia comprovada contra ansiedade, depressão e TEPT.
Avaliação abrangente do uso de cannabis medicinal em transtornos mentais
A cannabis medicinal tem sido amplamente utilizada para diferentes fins terapêuticos, porém uma recente pesquisa da Universidade de Sydney, publicada na revista The Lancet em 16 de dezembro de 2025, revelou que a cannabis medicinal não apresenta eficácia comprovada para o tratamento da ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O estudo, liderado pelo pesquisador Jack Wilson, analisou 54 estudos realizados ao longo de 45 anos, de 1980 a 2025, e constatou ausência de evidências consistentes para o uso desses medicamentos nessas condições psiquiátricas.
Os resultados indicam que, apesar da crescente popularidade do uso da cannabis medicinal, especialmente a partir de formulações contendo canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC), não há suporte científico robusto para sua eficácia em transtornos mentais comuns. O trabalho destaca ainda os riscos potenciais relacionados ao uso disseminado desses produtos, entre eles o aumento dos sintomas psicóticos, desenvolvimento de dependência e atraso no tratamento com medicamentos já validados.
Diferenciação entre cannabis medicinal e uso recreativo
É fundamental distinguir a cannabis medicinal da planta utilizada recreativamente. Enquanto o uso recreativo permanece ilegal em muitos países, incluindo o Brasil, os produtos medicinais são formulações padronizadas, com concentrações controladas de compostos ativos, administrados em formas como óleos, cápsulas e soluções orais. Essa diferença é essencial para entender os objetivos e limitações dos tratamentos à base de cannabis no contexto da saúde mental.
Potenciais benefícios e limitações em outras condições de saúde
Embora a pesquisa tenha descartado benefícios consistentes para ansiedade, depressão e TEPT, o estudo identificou sinais de efeito positivo, ainda que frágeis, para outras condições como insônia, tiques, síndrome de Tourette, sintomas associados ao autismo e dependência de cannabis. Contudo, a qualidade das evidências para esses usos é considerada baixa, o que reforça a necessidade de cautela e acompanhamento médico rigoroso.
Além disso, há indicações mais consolidadas para o uso de derivados da cannabis em tratamentos fora da psiquiatria, como a redução de crises epilépticas em certos tipos de epilepsia, controle da espasticidade em pessoas com esclerose múltipla e manejo da dor crônica. Nesses casos, os medicamentos à base de canabinoides já são reconhecidos e utilizados em diversos sistemas de saúde.
Expansão do mercado e desafios regulatórios globais
O estudo chega em um momento de rápida expansão do mercado da cannabis medicinal. Na Austrália, por exemplo, as vendas triplicaram nos últimos quatro anos, com mais de um milhão de prescrições aprovadas. Nos Estados Unidos e Canadá, cerca de 27% da população entre 16 e 65 anos já utilizou cannabis para fins medicinais, incluindo tratamento de problemas de saúde mental.
No Brasil, embora o uso recreativo seja proibido, a comercialização de produtos à base de CBD em farmácias é permitida desde 2019, e a importação individual desses produtos tem crescido substancialmente. Em 2025, foram registradas 194.682 autorizações de importação, o maior volume desde o início dessa modalidade.
Esse crescimento tem levantado preocupações entre entidades médicas devido a lacunas regulatórias e incertezas sobre segurança e eficácia. Autoridades reguladoras, como a Therapeutic Goods Administration (TGA) na Austrália, estão revisando normas para garantir melhor supervisão desses medicamentos.
Implicações para profissionais de saúde e pacientes
Os autores do estudo enfatizam a importância de decisões clínicas baseadas em evidências rigorosas para garantir que os pacientes recebam tratamentos eficazes e seguros. Inserir cannabis medicinal no tratamento de transtornos mentais sem respaldo sólido pode acarretar mais danos do que benefícios. Portanto, médicos e autoridades sanitárias são encorajados a considerar os dados apresentados para orientar práticas e políticas, evitando o uso indiscriminado e promovendo cuidados que minimizem riscos.
A análise do grupo da Universidade de Sydney representa um marco relevante na discussão sobre a cannabis medicinal, reforçando a necessidade de pesquisas contínuas e regulamentações claras para equilibrar expectativas, segurança e resultados terapêuticos.
Fonte: veja.abril.com.br
Fonte: Divulgação)














